sábado, 4 de outubro de 2008

CALEIDOSCÓPIO: FRATURA EXPOSTA


Autor: Ozimar Alves Cunha Jr

Pessoas passam por seus caminhos diários. Um executivo frenético cruza a rua sem prestar atenção na beleza do mar. Um pipoqueiro grita na tentativa de aumentar as vendas. Na areia algumas moças praticam nudismo. Nos edifícios as pessoas cumprem mecanicamente suas funções sem nada exigirem da vida. Jorge está com o cavalete armado tentando retratar o mar, a beira-mar é o ambiente de contemplação preferido por ele, que está pronto para pintar seu melhor quadro.

POETA:
"Minha arte é algo especial que busca uma expressão, sem que esta frature a linguagem. A arte está se depravando em todos os sentidos, mesmo debaixo das aparências mais intelectuais respira-se sempre um ar de desmoralização. Minha poética sempre se concentrou em retratar o absurdo que é o ser humano, mas sem deixar de ressaltar que este também é genial. As artes estão estagnadas, mas é preciso tentar reagir, parece que há uma quantidade de valores que nos tornam poderosos e ricos. Assim é preciso instalar novos pilares artísticos para que possam ser desfrutados. Eu não me declaro inovador, mas também não sou um parnasiano. Como criar uma cultura intensiva, se a própria sociedade explorada não tem esta consciência, e ao contrário, tem a tendência de eliminar os vestígios que lhe restam; assim não há como curar a arte e protegê-la para melhor utilizá-la. A maioria das pessoas não me entende, mas me conformo em atuar apenas nos círculos eruditos, pois não gosto de perder tempo com quem não tem sensibilidade e não sabe captar o inexpressivo. Há muitos anos trabalho na confecção do meu primeiro livro, mas minha construção é fina e delicada. Confesso que gosto de romances americanos e que amo a música clássica alemã.”

Os talhos de madeira caem no chão. Felipe está no seu galpão, um local espaçoso, mas que em compensação vive cheio de troncos de madeira, latas com gesso e outros materiais diversos que fazem parte do seu trabalho. Numa cadeira ao lado fica Sandra, a namorada de Felipe. Ela é entusiasmada e sonha ver o namorado apresentando suas esculturas em algum salão de Londres ou Paris. Sandra tenta entusiasmar Felipe dizendo:
– O grande erro de seus colegas consiste em considerar as idéias espirituais como objeto de luxo, pelo qual somente se recorre quando se está farto de tudo e não se sabe mais desejar outra coisa, se não, as coisas primárias da arte.
Felipe resmunga algo em resposta. As luzes do recinto são opacas e o casal fica o dia inteiro naquele local: Ele preparando e executando trabalhos que, na maioria das vezes, pela tarde são destruídos, pois os dois não acham que qualquer coisa possa representar o espiritualismo artístico defendido pelo grupo.

PINTOR:
"Vejo as coisas de dentro para fora. A natureza é superficial, mas Deus concentra na representação pictórica a divindade. Acredito que não devam existir verdades universais, mas somente “verdades” relativas aos interesses dos que possuem os meios para impô-las. Os homens deveriam se concentrar na contemplação, mas somente poucos podem representar a natureza, retirando dela as supurações e destacando as perfeições. Não vejo beleza alguma naquilo que não expresse a natureza, pois nada expressam, admiro sim, a natureza como ela é: linda e perfeita. Observo a natureza como ela deve ser vista: com a visão dos pincéis, pois no íntimo de cada obra de arte há sempre uma luta constante.”

O quarto está totalmente empoeirado. Há folhas soltas por todos os cantos. No canto esquerdo existe uma escrivaninha com uma lâmpada móvel que facilita a iluminação. Maciel escreve poemas como quem se mata, há toda uma preparação e na maioria das vezes ele pára no segundo verso. Com o tempo as folhas vão se perdendo em meio aos livros. Na gaveta da cômoda há um fichário, onde são guardados os poemas que chegam até o fim e que passam pelo crivo de Maciel. São poemas inéditos, com os quais sonha deslumbrar o mundo ao editá-los.

PAI DO ESCULTOR:
"Meu filho sempre foi diferente. No início eu pensei que ele seria o orgulho da família, mas o tempo foi passando e tudo começou a ficar esquisito. Primeiro ele começou a ler, chegou a passar semanas sem dormir, só lendo. Depois vieram as farras e por final esta loucura de ser escultor. Ora, este vagabundo deseja manchar a reputação da família deixando sua mãe pelos cantos a chorar; Eu tendo que ouvir besteiras do seu Joca da bodega. Às vezes, Felipe me vem com coisas de desmiolado e dá vontade de lhe dá uma surra, mas eu já disse para a mãe dele, que o safado já não é mais o meu filho, ele agora é filho do mundo."

– Mas isso é indigno Doutor! – Um soluço lhe corta a voz, mas ela consegue terminar a frase. – Me explique melhor!
– Veja: Seu filho tem uma mancha no cérebro, o que o faz um ser que aspira cuidados especiais.
– Quer dizer que meu filho é doido?
– Não minha senhora!
A mulher começa a chorar e soluçando fala:
– Ele sonha em ser famoso. Vive escrevendo poesias. Meu filho é um artista. – Novamente um soluço irrompe e ela tenta concluir. – Mas ele corre algum risco de vida, Doutor?
– É preciso fazer mais exames. – A mulher perde o controle e desabrocha num clamor que comove todos na clínica.

PINTOR/ESCULTOR:
"Como eu trabalho com símbolos, tenho que ter muito cuidado com as representações estilísticas. As artes modernas preferem os símbolos abstratos às figurações, o que limita a arte a ter um conhecimento raso da engrenagem dos fenômenos e que finalmente não determina o que estes realmente são. Sei que estou preparado para ser um artista renomado, pois este é o meu sonho. Mas quem sabe o que acontecerá, pois eu defendo um futuro brilhante, uma carreira e uma vida plena e espiritual. Não há nada mais supremo do que isso: captar imagens. São imagens e percepções. A natureza está em tudo: cromática e viva, pronta para ser egocentricamente misturada com a divindade artística. Toda manifestação artística verdadeira é equilibrada quanto à natureza. Assim, vejo a beleza como uma ligação entre o homem e Deus e a vida como a maior das expressões artísticas."

– Não me entendo Carla!
– Como assim não se entende?
– Ora... Não me entendo. – Ela pensava em Felipe, que naquela manhã devia estar trabalhando sozinho no galpão.
Então ela beija Carla demoradamente e esta aceita aquele ato insano. As duas começam a se acariciarem. Carla encontra o sexo da amiga e se sente excitada, enquanto sua parceira morde sua nuca. As duas começam a se despir e logo depois fazem sexo ali mesmo na sala.
Horas depois...
– Nunca senti nada igual.
– Muito bom. Nunca pensei que você fosse tão louca.

MÉDICO DO POETA:
"O senhor Maciel se encontra num estado delicado. A sua mancha no cérebro se trata de uma patologia desconhecida e que também é progressiva. Só nos resta, usa-lo como cobaia para experiências, só assim, quando aparecer outros acometidos dessa enfermidade, poderemos tratar destes melhor. É uma pena que um jovem culto como o senhor Maciel, não tenha tanto tempo de vida."

De longe era possível ver Jorge. Compenetrado ele transladava uma moça para sua tela. Ele, num local privilegiado, as rochas ficavam numa posição correta e ela de longe parecia que pousava intencionalmente servindo de adorno. Enquanto o pincel corre, Jorge se lembra de quando na infância ia brincar nos descampados: todos os meninos riam de sua baixa estatura. Ele, já com 12 anos não se conformava com aquela situação. Aquilo o fez recolher-se dentro do seu mundo. Aquela sua pintura se chamaria: "A moça de pedra", faria bastante sucesso.
Carros passavam. Uma moça desce do carro com um envelope na mão. Um jovem barbudo leva um pacote grande nos ombros. Uma senhora segue pela calçada com o olhar abatido e o caminhar cansado. Nesse mesmo momento numa passeata, um grupo de jovens grita palavras de ordem, enquanto um destes lê várias folhas que estão em suas mãos.
– O que é aquilo? Devem ser baderneiros!? Não sei.
– Você não gosta mais do Felipe?
– O quê? O quê? – Na rua está acontecendo uma confusão com os jovens.

POLIFONIA:
"Minha pele vive marcada por agudos riscos. Vivo uma agitação lenta, como se algo houvesse de acontecer. Quando paro no espelho e me olho, fico estarrecido. O sucesso que me bate à porta parece merecido e ao mesmo tempo injusto. Agora me sinto exausto, como se tudo estivesse se esvaindo. Há momentos quando estou dormindo e meu corpo parece estar banhado por uma essência divina. Amanhã levarei meu último trabalho para que Carla possa analisá-lo, estou ansioso e nervoso. Com todas as dificuldades sei que assim mesmo poderia penetrar no nevoeiro da morte. Eu poderia também descer ao acaso da vida. Não há um instante a perder. Embarco enérgico nesta obscuridade. Sinto que dentro de mim algo me dilacera. Às vezes, quando termino um trabalho, fico a olhá-lo e a tentar recompô-lo. Sei que Deus está perto de mim, apesar de minha imperfeição. A arte é uma coisa séria, que deve ser levada ao extremo. Não que eu entenda muito disso, mas é a vida e a arte que me ensina um pouco disso tudo.”
* * *
– Você viu aquela tela magnífica do Jorge? – Argumenta a 1ª crítica de arte.
– Claro! As linhas são muito agressivas – Retruca a 2ª crítica de arte.
– A moça da tela ficou maravilhosa.
– Muito bonita. Só é curioso uma coisa, são aquelas brotoejas na rocha.
Uma das críticas começa a datilografar. No outro lado da cidade várias viaturas da polícia se dirigem para a praia. Uma moça sorri em seu apartamento.
– Olha aí o livro do Maciel que eu comprei. – Diz a 2ª crítica de arte.
– É o de estréia dele, não é!? – Indaga a 1ª crítica de arte.
– Sim. Suas rimas são sinuosas e suas metáforas são elegantes. O mais gostoso são seus momentos melancólicos.
No galpão de Felipe existem várias peças no chão, demonstrando desleixo.
* * *
Naquela noite, tudo estava calmo e pacato. Na orla marítima a brisa suavizava as faces decrépitas que procuravam repouso. Aquela praia era muito procurada por turistas, que ali faziam de tudo. O grupo se encontrava afastado da parte comercial da praia. Todos estavam reunidos em torno de uma fogueira que crepitava ardentemente. Aquela fogueira consumia muitos sonhos, desejos, paixões e leviandades. Ninguém ali era santo. Ninguém ali era de todo profano. Então, Carla se precipita a falar:
– Bebamos este vinho como se ele fosse nosso próprio sangue. – Era evidente embriagues de todos.
Felipe se levanta e balbucia algumas palavras incomunicáveis. Em resposta Jorge se deita – naquele momento ele vê as estrelas piscarem e pensou: como tudo aquilo era belo; aquelas imagens não eram possíveis de serem vistas da cidade – e, frenético, grita:
– Vivemos intensamente. Doaremos as nossas vidas em troca de uma causa plena. Vivam as linhas. Vivam as cores.
Sandra toca na mão de Carla e esta retribui ao afago. Maciel segura a arma firmemente e coloca três balas em seu tambor. Felipe pega a arma e roda o tambor e logo a entrega para Sandra. Neste momento Sandra olha para Felipe – este tinha a face cansada e os olhos rodeados de vincos – Então ela põe vagarosamente a arma no ouvido e puxa o gatilho. O corpo tomba para traz e o sangue escorre se misturando à areia. Maciel corre e pega a arma. Ele roda o tambor e posiciona abaixo de seu queixo e atira. O tiro encontra uma cavidade vazia. Então ele coloca mais duas balas na arma. Jorge pega a arma e a introduz na boca. O projétil vara o seu corpo, que tomba lentamente. Carla grita:
– Amaremos a nós mesmos, como amamos o mundo!
Maciel pega novamente a arma e desta vez aponta na cabeça de Carla. Felipe consegue ouvir o som dos miolos se destroçando. A pancada do corpo é brusca. Então Maciel aponta a arma em direção ao próprio nariz. Novo corpo no chão e bastante sangue que se mistura ao fogo. Felipe, o último de todos, completa o tambor de balas e a dispara no peito.
A brisa se agita e o fogo novamente crepita.


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Um comentário:

nilda disse...
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