Teorema da incompletude ou Genialidade alucinógena (09/08/2015)
Autor: Ozimar Cunha
(logo após a leitura da Graphic Novel LOGICOMIX)
Os paralelos se cruzam
Como cordas no pescoço
A matemática exata
Baseia-se em axiomas
Assim como a fé nos dogmas
Silogismos que avançam
Contradições que se repelem
Assim como faces opostas de um imã
A razão que galga rumo a uma teoria
Prismática e sem refração
A ciência se reduzindo à incompletude
Assim como a física
- que se bifurca em três teorias
Diametralmente opostas -
Toda a base da ciência
Entregue a genialidade paranóica de Gödel
A ciência que se entrega a magia da fé
E a certeza de que a razão é tão vã
E vaga como a loucura alucinógena.
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quarta-feira, 12 de agosto de 2015
sábado, 21 de março de 2009
ORO MALSPRITA

nem todos percebem o sensível
e eu penso cada vez mais nisso
lá fora existem coisas além de nossa visão
o cosmo caminha para o seu fim (início)
não percebemos nada de estranho
nos contentamos com um palmo após o nariz
não existe somente o nosso umbigo
preocupo-me com o caos, o cosmo
pois eles são comigo
não posso entender o artista
sem compreender a arte
as metáforas não são tão longas como parecem

um dia os homens se verão desesperados
toda a compreensão estará perdida
o sensível estará ao alcance de todos
mas infelizmente o fim terá chegando
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
MAIS UMA VEZ... ?
Observo as coisas, cético
não na descrença
mas na crença
nada no estremo
nada na borda
tudo se arriscando
sem ser absoluto
mas também sendo algo
ceticismo ao observar
ao saber que o homem
estar preso à liberdade
ao livre-arbítrio forçado
na idiotice que é ser animal
no sublime que é viver
sabendo apenas de algo
do único algo palpável
e que nunca pegaremos:
a morte
há um absoluto
mesmo que desmistificado
solto na racionalidade
preso na consciência
fruto singelo do inconsciente.
Não sou utópico
não sou anjo da salvação
não tenho poder nem para mim
mas não sei nada em absoluto
nem primo ser alienado.
(14/06/03)
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sexta-feira, 17 de outubro de 2008
URDO-BARBE

Celebro o mundo
a precariedade do mundo
a subjetividade imanente
a transcendência linear
o sufrágio no vácuo
o mundo lógico/escato
substrato retr[radi]oativo
mundo extra-imundo
subjacente e urbe
a [h]ora menos sua origem
/* Wflux cara a cara
sem direito aos seus poderes
sem suas leis gaseificadas */
o que vale ser visto
ser que compreendido o
leis extras de bardo
métricas sem rédeas
se tudo não é suficiente
se tudo não é tão igual
IF a bala é perdida THEN
mate o otário
ELSE mate a pessoa certa
END IF
tudo não tão lógico
nem tão certo
nem tão menos bipolar
fluxo de cre-ex-mentos
devíamos nos desprender das palavras
esquecermos dos gestos
abandonar a comunicação
não mais usar a interação
devíamos dever
imaginar o mundo sem imaginação
sentir o sangue pulsar
sob a égide das leis naturais
hoje sei que meu saber é sapere
hoje sei que sei pouco
amanhã saberei que saber é preciso
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quinta-feira, 16 de outubro de 2008
AO MEUS POUCOS AMIGOS

peço desculpa a vocês:
por não crê em vossas teses
por não ser capaz de provar as minhas
por não poder poder
por não estar preparado
e nem muito menos despreparado
pela intolerância tão sincera e vaga
pelas influências descabidas
pelos livros oferecidos e rejeitados
pelos poemas mal engendrados
pelas recíprocas retardatárias
pelas imagens esquecidas
pelo vinho deixado no copo
pelos sonhos deixados no meio do caminho
pelos e-mail´s insistentes
perdoe-me por apenas
tentar sempre ser eU
e nunca poder ser os outros
desculpa por não ser capaz
de ignorar o mundo e suas sujeiras
desculpem finalmente por ser incapaz
apenas sou um matuto cearense
com carapuça de outra coisa
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sábado, 11 de outubro de 2008
PARALELO 13 (29/09/2008)

é hora de partir
o trem chama seus passageiros
deixem suas mochilas
esta será a última viagem
esqueçam tudo que já passou
e também o que vier
subiremos no trem
rumo ao paralelo 13
deixaremos para trás tudo
e seguiremos viagem
sem rumo certo
nosso peito levará nossa angústia
aos poucos perderemos os sentidos
não mais saberemos distinguir nada
e aí será impossível o retorno
por toda a eternidade
sorveremos o necta sobejo
sem sabermnos o verdadeiro sabor
não teremos a real dimensão
nosso sono será eterno
é hora de partir
não é possível levar nada
senão uma boa dose de loucura
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quinta-feira, 9 de outubro de 2008
POEMAS DA VELHA-NOVA TEMPORADA

FOICE CIBERNÉTICA (13/04/2007, sexta-feira pela noite)
celebremos os homens máquinas
os homens mecânicos
que vivem de vender o próprio espírito
os homens que sorriem dólares
e se esquecem do gozo antecipado
antes da última aurora boreal
celebremos o fingimento premeditado
a gargalhada planejada
o gole de cerveja subvertido
o insulto mal elaborado
vibremos mais um ser eliminado
por mais uma vitória garrida
guerreada a custo do suor alheio
exaltemos ao Deus por nós criado
mutilemos nosso senso com a foice
esqueçamos que o beijo torto
é a despedida da morte cruel
... eu ...
esqueço que agora vivo mais do que nunca
e isso me mostra que viver é angustiante
não porque é ruim em si
não, não é por isso
é porque viver é em essência isso
quem não sente assim
é porque vive uma vida fingida
ou então se prepara em silêncio
para o auto-cadafalso
exaltemos mais do que nunca
o gozo cibernético
e o mundo virtual
que de virtual só tem o nome
celebremos o futuro brilhante que nos espera
amemos nem que seja a custa de ódio
esta deve ser a fórmula mais simples
... tu ...
o anjo descerá com a foice amolada
colocara-la sobre o pescoço do acusador
muitos gritarão em desespero
os bons se arrependeram de assim procederem
os maus se arrependeram de não serem bons
e nós os imaculados
ah... nós fulgiremos
sumiremos pela porta lateral
enquanto a multidão eufórica
pratica a sua justiça cega
... nós ...
viva ao novo mundo
forjado por mãos perfeitas
filhas de um amanhã vindouro
esqueçamos que algo precisa ser esquecido
sintamos então o peso do fingimento
tão valioso para nossa existência
e que existência...!?
vaguidão é o meu lema
celebrarei o último adeus
e o primeiro suspiro da agonia
ENTORPECENTE HIPERBÓLICO (23/04/2007)
penso em me entender
em pensar em nos entender
ou compreender o propósito
de tudo isto que está aí
e que a explicação da explicação
não passe de fetiche barato
nem de paranóia coletiva
e isso já se configura
um vício na prova
é recorrente eu sei
mais parece que vivemos
preso à parábola do anzol
onde peixe e pescador são a mesma pessoa
sou físico-poeta
um filósofo-poeta
um matemático-poeta
um lunático-poeta
mas é que a beleza do desconhecido
fascina-me
muito mais que um copo de coca-cola
não há muito que fazer
o que refletir
o que sentir
o que perceber
eu sei
e essa sabedoria me aterroriza
e ao mesmo tempo me encanta
dar-me consciência
que a única consciência possível
é a fuga do consciente
não há outro meio
nenhum substrato da vida pode ser maior
do que a própria vida
sei que falo de redundâncias
mas a vida nos ensina quase nada
e nos contentamos com muito pouco
ou quase nada
e é isso aí que temos que fazer mesmo
já que não temos coragem de fugir
já que o paraíso é inferno
penso em me entender
meu entendimento é pouco
raquítico...!?
nós sabemos pouco sobre tudo
conhecemos a estrela Gama-1725
e a integral do cosseno hiperbólico
e não conhecemos o sorriso escondido
em nossas carrancas sérias
a fabricar compêndios de entorpecentes
a cada dia amanheço no desconhecido
por trás de cada suspiro
questiono-me sobre o porquê de estarmos aqui
de especificamente estar aqui
e me perdoem por não ser o melhor
a explicar tudo isso
não entendi muito bem a psicanálise quântica
e nem muito menos a física analítica
nem sou muito afeito a conviver com monstrinhos imaginários
COLÍRIO ALUCINÓGENO
prendo o barco na margem
o que falta além do ocular
me derramo sincero
já não tenho mais o que esconder
nunca tive o que esconder
pois o que está oculto
liberto se tornou pelo fato oculto
o que está suplantado
é sinal da hereditariedade
fruto de uma nova forma
de uma nova idéia
que não requer subjetividade
e não se submete ao caos
é algo que faço além
que não está antes e nem depois
e que no hoje nada é
é vida
e como tal é mistério
é simulacro de palavras
o mistério não está aqui
não está além do tudo
é apenas fluxo inconteste
é o Deus antes de si
é a natureza
em sua natureza mais primária
quase um arbítrio aleatório
ou um sentido semiótico
ou idiotice mesmo
ou uma interpretação contagiada
um fôlego cambaleante
sentimento de quem possui sonhos
e os frutos deste se esvaem
na certeza de que o real
é tão real
que transforma a ficção em real
e tudo se mescla num guisado
numa epilepsia santa
numa simulação da vida
despreocupada em sentir
despercebida do gozo
da saliência protuberante
do silvo que se insinua
do sexo açodado de sabor
e da eclosão nuclear
que transborda as barreiras
que gera nas linhas uma falácia
que não precisar ser arriscada
pois é risco certo
pois é vida antes da morte
pois é morte antes do óbito
e nada é tão desleal
e fiel a uma lógica
que foge aos conceitos matemáticos
pois pertence à vaga tradição
e não possui nenhuma intenção
e fere minha ilusão
tomara que o analgésico funcione
e eu consiga dormir
PINTURA SENOIDAL OU BELEZA ESQUIZOFRÊNICA
tenho urgência para sentir a vida
para ler todos os livros
para compreender toda a matemática
para entender a libido da poesia
para suplantar o não suplantável
só não tenho urgência com minha barba
não tenho muita fé com as ideologia
elas são muito alienantes
ideologia é uma idéia unitária
formada para ser dogma
tenho urgência com a urgência
sinto a dor dos meus como a minha
mas estou prezo num labirinto estético
numa variedade algébrica não-comutativa
ou numa pintura senoidal abstrata
o resto de mim vive
com esperança residual
minha sabedoria é estranha
vivo para isto
da teoria dos grupos
aprendi que grupos são “coisas”
e as coisas vão muito além
não sou mais o mesmo poeta
não busco mais amuletos
escrevo para me libertar
da incapacidade de [re]criar
não me contento em apenas aprender
o que adiantar saber pintar
para apenas reproduzir telas alheias
CALTERIZAÇÃO
é preciso ir além do além
sentir a vida sem medo
mesmo que o medo exista
é preciso saber amar
ou ser amado
nenhum dos lados da moeda
é fácil de ser assumida
aqui a probabilidade não funciona
pessoas como eu se prendem a si
se prendem a algemas virtuais
não têm coragem de ver muito além
mas o além é aqui
e eu sempre tento entender isso
goles de vinho
não devem ser levados a júri
nem emoções apresadas
nem sapere!
RESPINGOS DE SAL (17/04/2008)
o que eu posso dizer sobre o mar
sobre a água...
eles representam para mim Deus
a chuva é o melhor sinal
da existência de Deus
e o mar? E a chuva?
sinto a brisa do mar
e os respingos de chuva
vejo Deus entre o mar
o sal que não tem na chuva
olho entre os vidros do ônibus
respingos de uma chuva
lembro-me da sabedoria
da chuva-mar-sal-Deus
a chuva me leva a tristeza
a tristeza me leva a vida
o mundo me leva ao mar
assim a chuva me alerta
e eu vivo o mar-chuva
a dignificação da vida
dentro do meu mundo
existem diversos mundos
e entre um mundo e outro
existem diversos mundos
e cada mundo é maior
que o conjunto dos outros
cada mundo é um universo
SORTILÉGIOS NEGROS (21/06/2008)
o mundo é tão estranho quanto nós
e não sabemos muito sobre nada
nem sobre nós e nem sobre o mundo
o que sabemos é estrábico
(e mesmo assim sabemos muito)
o suficiente para sabermos
que nada já é o suficiente
para sabermos que nada lucramos
que a angústia é a única solução
e que a pedra filosofal não existe
assim como nunca existiu a ilusão
a vida é uma busca pelo não buscável
mas não é preciso se perder
afinal nada é tão sério
nada é tão final e letal
nada é tão banal como a banalidade
e nossas ilusões nos sorvem
como eu sorvo a loucura
santa loucura, insana
lá fora está o medo
está a loucura noturna
soturna em seus sortilégios negros
lá fora está a virgem
que segura seus seios com frescor
mas não sabe que o seu deus já passou
há muitos dias não jogo xadrez
não sei mais movimentar as peças
não brinco mais de ser deuS
o mundo é tão estranho
eu sou muito estranho
somos animais estranhos
bem que me avisaram
não beba da droga filosofia
ela te trará a sabedoria
e te devolverá a loucura
então santa virgem de seios carnudos
dei-me suas mãos e sigamos
nos perderemos na névoa poética
nos misturemos com o cheiro das vinícolas
[SEM TÍTULO]
o que é a loucura se não nossas próprias vidas
senão a sinestesia élfica que emula nossas idéias
senão o pendão que nos leva ao verdadeiro céu
não creio no provisório e irreal
mas acho ilógico toda forma de lógica
mesmo a lógica fundada na ilógica
o que é realmente a loucura?
o que é a vida?
o que é o mistério?
depois que inventaram a ciência
depois que deixaram a santa irracionalidade
somente sentimos sortilégio baratos
cremos em Deus e amuletos
com a mesma convicção que levamos à fogueira o mais frágil
da mesma forma que fazemos a guerra
da mesma forma que fazemos o amor
mas e a loucura?!
além dos pilares basilares
está cravado em frases mirakulosas
a santidade daqueles que assumem a loucura
que despertam para a noite divina
que vêem Deus como real criador
sábado, 4 de outubro de 2008
VACUIDADES DIALÉTICAS (09/07/03)

Autor: Ozimar Alves Cunha Júnior
O futuro é uma forma abstrata
o passado é algo que existiu
não é fácil entender
futuro é o que está
e que em si mesmo
nada deixa de ser
é oblíqua a equação
passado é substância invisível
coisa que existiu
mas agora não é
assim, nada é em si
sistema para entender
tudo passa pelo presente
o passado já foi
e sempre será
o futuro será
não é certo
o tempo mesmo não existindo
é o móvel motor desta relação
onde o que não é
passa a ser, sendo
e assim, será incerto
abstrações...
vacuidades dialéticas
há um sistema vital
que rege ilusoriamente
somos presos a este arco
que só tem ida
mas não tem volta
porque é um estar aqui.
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ESTA POESIA FOI PUBLICADA NA REVISTA ESPIRAL 8
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POEMA QUE CONTEMPLA O MESMO ASSUNTO (TEMPO)
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TEMPO FABULOSO
“Para aqueles de nós que acreditam na física, essa separação entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão, posto que tenaz.”
Einstein
o tempo não passa de ilusão
uma ilusão verídica
racionalidade rústica
ele não controla sua veracidade
sentido que a física tenta explicar
mas não passa de aforismos estrábicos
e a filosofia só lhe compreende na essência
o time é mateiro
arredio e sem pena
mesmo imaginário
ele não perdoa ninguém
é juiz supremo e cruel
o Zeit foge a compreensão
e suplanta a logicidade
ele é a quarta dimensão
e vara a imagem ocular
a sua percepção como tal
passa a ser relativa
e assim é imprecisa por natureza
e dentro da visão de seus ponteiros
tudo não passa de fluxo sibilar
o tiempo é largo
e abarca todas as marcas
que compõem os horizontes temporais
ele é passado e futuro
e mesmo impreciso
é também presente
ele é a linha
entre o passado e futuro
entre o presente e passado
o tempus é Primeiro Motor de si mesmo
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
CARTA FANTASIA

CARTA FANTASIA I (11/04/2000)
As luzes se movem
entre pensamentos
e reflexos sem ordem
de uma hora azul
figurando o amém
sendo poeta do não
vendo o ser da razão
o morno de algo ação
flertes de amor colorido
como e como palavras
de ternura e sabor
as luzes se apagam
a noite cai, vem
o vento flui, como o vermelho
e tudo voa no pensamento
de ser e não ser
cantarolando um verso
balbúcia de rimas
declamação de teorias
eixos e não eixos da luz
ser poeta do nada
rimar o inexistente
a noite flui, calma
a máquina de escrever
se evapora na saudade
uma saudade inexistente
como tudo na poesia
do poeta noturno
que não sabe distinguir
a diferença entre o mundo
e o calor de um afago
a luz brilha reluzente
a visão do meu tédio
a vontade de sorrir
ou de proferir uma rima
no vento de ser poeta
na vontade de ser o melhor
mas na prática ser o pior
como ondas que não se cansam
de subirem e descerem
sem fugir a regra
sendo sempre o mesmo
a noite vem a apagar
o vento corre como leite
a máquina vira uma carta
as fichas se misturam
como da vida a hora “H”
com chances de ferir
encerro a carta fantasia.
CARTA FANTASIA II
A lua vibrava e eu rolava
a caneta sumia entre rosas
morria um poeta de grito
mas à luz brilhou com trincos
de imediato apagando a pomba da paz
eram presas as letras da censura
ela voltava, voltou...
nós loucos por se expressar
calma coração não pare
antes do último grito
pois a vida é fraca
tudo é frágil, o sangue corre
o papel se apaga, a caneta é falha
os dígitos da mente se somem
e eu digito: sou a loucura dos loucos
mas a crítica flutua
e eu não passo de um pobre
os ricos se matam
como poeta eu choro letras
as flores se vendem
chamas se calcificam
é a apologia da loucura
é o apocalipse inválido
mentes de algodão
sementes de poesia
assim me pedem inspiração
me encomendam um poema
sobre os perfeitos
(mas como posso tanger o mar
se meus pés são âncoras de bronze?)
pulo e viro a bordo da máquina
a única via de liberdade no mundo
vem provérbios, vem cismas
e tudo me mostra a carta fantasia.
CARTA FANTASIA III
O chão treme e eu grito
penso em pular
tudo fica torto
os pupilos se curvam
ergo a minha espada
pronto para o combate
os navegantes invadem a loucura
os curiosos brigam por liberdade
mas eu fito de longe
os guerreiros se posicionam para a guerra
os piratas invadem a ilha ilusão
os exércitos da sabedoria
partem rumo a inércia
e eu fito de longe
um guerreiro solitário
todos se encontram no campo imaginário
numa guerra de pensamentos
eu me aproximo para retratar o acontecimento
e sou baleado com um verbo mal rimado
no final todos perdem
mas à guerra não acaba
como nunca acabará
e os pupilos, navegantes, curiosos
formam o reino dos revoltados
os guerreiros, piratas, exércitos da sabedoria
unificam-se como o grupo das ciências
mas vejo longe, bem longe
um guerreiro solitário
e só eu saio vivo
para versificar a carta fantasia.
CARTA FANTASIA IV
Preparo a carta fantasia IV
pego uma folha na gaveta
olho para o rato que passeia nas telhas
sinto a escassez de ser rigoroso
fazendo uma arte livre.
O ar era morno
os insetos piscavam
num instante vi a máquina
que se apresentava para mim
e pedindo sua alforria
sorri e dei um tiro em sua fonte
as pessoas correram atordoadas
e eu fugi rumo aos que brincavam
com uma bola de neve
e de repente começaram a atirar
vários caíram baleados
e eu empunhei minha arma
mas não houve jeito.
Beijei a face de uma deusa
era deusa mesma.
O aroma que exalava era trépido
uma folha tremia em minhas mãos
pensei ser uma carta
(esta minha psicose por cartas)
mas não, era um poema
(notei pela disposição das palavras)
no início, na margem esquerda
estava escrito
a carta fantasia.
CARTA FANTASIA V
à beira de um colapso biológico
os escolhidos decidiram que o nada seria melhor
e nos tornamos refém do virtual
nossas raízes se desprenderam do passado
e a loucura tomou conta das verdades
e os anjos com o domínio total
lancei-me a contestar minha sanidade
protestei com as ferramentas que possuía
não sobrou em quem confiar
apenas entendi que se tudo não valia a pena
deveria jogar aquela partida de xadrez
mesmo com meus cavalos truncados
lá pelas quantas entendi
a superficialidade do entendimento humano
e o efeito do narcótico começou a desaparecer
e se tudo não era mais verídico
a busca desesperada chegava a seu fim
finalmente estava livre para retroagir
até a minha idade negativa
até o antes do nada
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